A Pessoa Real do Analista no Processo Psicanalítico
Por mais tentado que possa se sentir o analista a se tornar o educador, o modelo e o ideal de seus pacientes, qualquer que seja o desejo que tenha de moldá-los à sua imagem, ele precisa lembrar-se de que esse não é o objetivo que procura atingir na análise e até de que fracassará em sua tarefa entregando-se a essa tendência.
Recortes da obra de David E. Zimerman formado em medicina pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul, em 1954. Tornou-se especialista em psiquiatria em 1964. Realizou sua formação psicanalítica no Instituto da Sociedade Psicanalítica de Porto Alegre (SPPA), da qual se tornou membro associado em 1976. As múltiplas atividades exercidas por ele incluem uma intensa participação como psiquiatra, psicoterapeuta individual e de grupos, psicanalista, assíduo participante em congressos nacionais e internacionais, apresentando sempre suas brilhantes contribuições. Ensina no Instituto de Psicanálise da SPPA, além de desenvolver contínua atividade como supervisor de psicoterapia e psicanálise, e mantém sua atuação na clínica privada.
Fonte: ZIMERMAN, David E. Fundamentos psicanalíticos: teoria, técnica, clínica–uma abordagem didática. Artmed Editora, 2009
Por mais tentado que possa se sentir o analista a se tornar o educador, o modelo e o ideal de seus pacientes, qualquer que seja o desejo que tenha de moldá-los à sua imagem, ele precisa lembrar-se de que esse não é o objetivo que procura atingir na análise e até de que fracassará em sua tarefa entregando-se a essa tendência.
Assim agindo, ele apenas repetiria o erro dos pais cuja influência sufocou a independência da criança e substituiria a antiga sujeição por uma nova. S. Freud (1940).
Uma adequada, ou não, conduta psicanalítica depende bastante de sua maneira de decodificar o “material” do paciente e formular a interpretação. Trata-se, na verdade, de um algo mais que lhe é imanente (isto é, aquilo que existe sempre em um determinado objeto e é inseparável dele), autêntico, que é forjado, desde sempre, na formação do seu psiquismo e do seu espírito e que, provindo das profundezas da pessoa do analista, consegue transmitir algo mais transparente do que as características que estão mais manifestas na superfície.
Quando escolhemos um analista para algum familiar, ou amigo particularmente querido nosso, mais do que o seu prestígio profissional, optamos por eleger um terapeuta que nos passa uma sensação boa de como ele é como “gente”, se o “jeito real” dele vai “encaixar” bem com aquela pessoa que, cheios de esperança, estamos encaminhando para um tratamento analítico.
Idade não faz diferença: por exemplo, pacientes adolescentes, ao contrário do que pode parecer a uma primeira vista, até gostam da ideia de se tratar com analista algo idoso, porquanto, no fundo, estão à espera de um novo modelo parental, alguém que preencha as faltas que foram decorrentes de limitações dos pais. A outra hipótese, a de uma pessoa mais velha vir a se tratar com um jovem, pode representar um entrave se houver significativa diferença intelectual, na experiência de vida e cultural a favor do paciente; caso contrário, não vejo maior contraindicação.
É imprescindível enfatizar a importância do estado mental de modo que o analista encara a psicanálise como método de tratamento da saúde psíquica, além de como ele se posiciona diante de seus pacientes. Assim, o ideal é que ele não tenha a sua mente saturada por preconceitos, dogmas, desejos, ânsia de compreensão imediata e de intolerância àquilo que se apresentar diferente do que ele espera.
O analista deve, sim, ser uma pessoa curiosa, desde que fique claro que existe uma diferença entre uma curiosidade “patogênica” e uma curiosidade “sadia”.
Essa curiosidade deve respeitar o ritmo e as capacidades momentâneas do paciente, o que vai exigir dele o atributo de tolerância às falhas, às faltas e às diferenças, assim como também requer que o terapeuta tenha uma boa condição de paciência.
A paciência, por sua vez, constitui apenas um dos aspectos que pertence a um atributo bastante mais abrangente, o da capacidade de o analista funcionar como um adequado continente para conter a contínua carga de identificações projetivas provindas dos pacientes, sob a forma de vazios, necessidades, desejos, demandas, dúvidas, angústias, entre outros, as quais são colocadas dentro dele.
É importante levar em conta que o fenômeno da identificação projetiva por parte do paciente não é somente uma fantasia inconsciente, mas, sim, que ela produz efeitos e reais modificações num objeto também real, o analista!
Diante dos estímulos provocados pelo paciente na mente do analista, a psicanálise sempre enfatizou a resposta dos sentimentos; na atualidade, além dos sentimentos, também importa bastante as atitudes (principalmente as internas) e os comportamentos, que devem ser reconhecidos pelo terapeuta, com o objetivo técnico e ético de ele manter uma mente própria.
Uma adequada capacidade de continência permitirá uma melhor função egóica de discriminar, estabelecer limites e definir as diferenças entre uma pessoa e outra do par analítico, de sorte a estabelecer uma contratransferência útil, o que possibilita o surgimento da importantíssima capacidade de empatia, ou seja, aquela que dá condições para o analista de, a partir de suas próprias vivências existenciais, poder se colocar na pele de seu paciente e, sem que ambos se misturem, junto e dentro dele.
O exercício combinado das funções de continente e de empatia implicam um outro atributo indispensável ao terapeuta: o de uma boa capacidade para saber escutar e manter sempre o respeito.
Se a precisão técnica das interpretações do analista não vier acompanhada de sua forma real de ser, no sentido de ele ter tolerância às falhas, às limitações, às resistências, às diferenças e, sobretudo, às possíveis decepções e desilusões que o paciente vier a lhe causar, a sua correta atividade interpretativa perde o que é mais importante – a eficácia capacidade de manter uma dissociação útil do ego, isto é, mesmo premido por preocupações existenciais alheias ao ato analítico, ele consegue fazer uma dissociação temporária entre a pessoa com problemas que ele é e o analista que está exercendo uma função difícil, séria e inteiramente voltada ao seu paciente.
Os analistas são pessoas que aprenderam a exercer determinada arte, mas que nem por isso perderam o direito de permanecerem homens semelhantes aos outros homens. Exige-se de um médico que trata de doenças internas que seus órgãos estejam em perfeito estado?
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Recortes da obra de David E. Zimerman formado em medicina pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul, em 1954. Tornou-se especialista em psiquiatria em 1964. Realizou sua formação psicanalítica no Instituto da Sociedade Psicanalítica de Porto Alegre (SPPA), da qual se tornou membro associado em 1976. As múltiplas atividades exercidas por ele incluem uma intensa participação como psiquiatra, psicoterapeuta individual e de grupos, psicanalista, assíduo participante em congressos nacionais e internacionais, apresentando sempre suas brilhantes contribuições. Ensina no Instituto de Psicanálise da SPPA, além de desenvolver contínua atividade como supervisor de psicoterapia e psicanálise, e mantém sua atuação na clínica privada.Fonte: ZIMERMAN, David E. Fundamentos psicanalíticos: teoria, técnica, clínica–uma abordagem didática. Artmed Editora, 2009